Guerra Urbana e a Responsabilidade da Mídia

por Antonio Martins - Novembro 2007
abril 2007

Os meios de comunicação de massa não têm, evidentemente, responsabilidade direta nas duas ondas de atentados cometidos pelo PCC em São Paulo. Foram fatos de enorme relevância, que mereceram com razão ampla cobertura jornalística. A miséria da mídia, neste caso exemplar e em tantos outros, não está no que ela mostra – mas no que esconde.

O noticiário reduziu os cidadãos à condição de espectadores passivos de um espetáculo. Quais as causas da explosão do sistema prisional? Como uma organização criminosa pôde, de dentro das prisões, formar e mobilizar amplas redes, articuladas com sofisticação surpreendente, no mundo exterior? Estas questões não foram formuladas pela mídia nem durante, nem depois dos episódios. É provável que continuem sufocadas, transformadas em não-questões, até a eventual eclosão de uma nova crise, quando o tema voltará ao papel e à TV sob a forma de... novas coberturas superficiais.

Entre tantas outras, duas perguntas essenciais foram evitadas, durante os atentados. Primeira: qual a relação entre a onda de violência e a tendência ao emprisionamento maciço adotada pelo Judiciário de São Paulo na última década, estimulada pelos governos Covas e Alckmin e complementada por medidas como as restrições à atuação de órgãos de direitos humanos no interior das prisões? A mídia, em geral, apoiou estas políticas, ao longo da última década. Ajudou a difundir a idéia grosseira segundo a qual a solução essencial para coibir a criminalidade é endurecer as medidas punitivas. Escondeu o verdadeiro massacre promovido pela polícia após os ataques do PCC, quando dezenas de cidadãos inocentes foram mortos. Minimiza as experiências inovadoras – e muito bem sucedidas – de redução da criminalidade graças à inclusão social e à auto-organização da sociedade civil. Ora, o crescimento do PCC desmentiu as teorias que pregam o controle por meio da repressão. O inchamento das prisões, para onde são conduzidos muitas vezes indivíduos que cometeram pequenos delitos, criou escolas de criminalidade. Este fenômeno foi agravado porque se negligenciou o aspecto de recuperação do ser humano nos presídios, ressaltando-se apenas a punição. O debate deste tema, que seria essencial para abrir a possibilidade de revisão das políticas atuais, foi e continua sendo sonegado.

Um segundo tema sempre evitado é a proposta de legalização e controle do uso de drogas. A sociedade brasileira tornou-se social, cultural e moralmente muito mais aberta e diversa, nas últimas décadas, mas esta proposta continua a ser tratada como tabu. É uma pena. Além de significar uma repressão de legitimidade questionável e resultados pífios, o proibicionismo ofereceu, ao crime organizado, a reserva de um mercado extremamente valioso e lucrativo. Não haveria a opção de legalizar as drogas, estabelecendo ao mesmo tempo controles sobre seu consumo e impostos sobre sua venda (talvez com receita vinculada à recuperação dos jovens e adolescentes infratores?) Ainda que um mercado paralelo persistisse, não é evidente que a grande maioria dos consumidores preferiria o mercado formal, como ocorre com todos os produtos? Quais seriam os inconvenientes desta legalização, do ponto de vista da saúde pública? É possível superá-los? Estes debates, de evidente atualidade e interesse público, também inexiste na mídia.

Não é por serem tendenciosos que os meios de comunicação de massa evitam estes temas. É por uma causa muito mais profunda, relacionada às transformações civilizacionais que estão marcando o fim da modernidade. A imprensa moderna, que surgiu com a Revolução Francesa, não tinha como objetivo essencial o lucro, mas a formação e informação dos cidadãos. Mas a concentração empresarial, as novidades tecnológicas e o espírito mercantil que marcaram o neoliberalismo mudaram sua natureza. A equação que predomina é baseada em agradar e entreter o leitor médio (em geral, uma pequena parcela da população), oferecendo-lhe as matérias capazes de aumentar as tiragens no curto prazo. Não é à toa que, assim como os partidos, os jornais cada vez mais se parecem uns com os outros.

Felizmente, está surgindo, também no rastro da pós-modernidade, uma tendência de sentido oposto: como alternativa à comunicação de massa, a comunicação personalizada. Ela é alimentada também por novas tecnologias (internet 2, blogs, wikipedia, YouTube, Delicious, RSS, XML e outras novidades que virão). Mas seu motor principal é o mal-estar (e a busca de alternativas...) diante de um dos paradigmas básicos da modernidade capitalista: o oligopólio das narrativas e dos discursos. Não é a mídia de mercado que vai refletir a dor e a delícia do cidadão comum e dos que lutam pela transformação social – são estes mesmos que estão conquistando seu espaço, ao se tornarem uma possível pós-mídia. Uma nova política de comunicação no Brasil, viável após o desmascaramento da mídia durante a reta final das eleições deste ano, precisa levar em conta o esforço histórico da imprensa alternativa. Mas deve enxergar também – e talvez principalmente – esta nova realidade, em que um número cada vez maior de seres humanos tem vontade de deixar a postura passiva de consumidor de informações, para participar ativamente da narrativa de seu tempo e da construção de seu futuro.