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Artigo / Entrevista
Ética profissional | Mídia e Justiça

CPMI deve discutir relações da Cachoeira com a mídia

Reproduzido do sítio Carta Maior - autoria Najla Passos e Vinícius Mansur

Nas oitivas com o delegado e os procuradores que participaram da Operação Monte Carlo, nesta quinta (10), os parlamentares terão a oportunidade de questionar, por exemplo, o real caráter das relações entre a quadrilha do contravetor Carlinhos Cachoeira e a revista Veja. Conforme levantamento feito por Carta Maior nas 1.661 páginas do Inquérito 3430, resultante da operação, Veja foi mencionada 78 vezes. O diretor da revista em Brasília, Policarpo Junior, 53.

Brasília - As possíveis relações entre o crime organizado e veículos de imprensa estão na pauta dos questionamentos que os membros da CPMI do Cachoeira irão dirigir ao delegado da Polícia Federal (PF), Matheus Mela Rodrigues, e aos procuradores da República, Daniel de Rezende Salgado e Léa Batista de Oliveira, convocados para depor nesta quinta (10). Eles são os responsáveis pela Operação Monte Carlo, deflagrada em 2011, que resultou na prisão do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e levantou suspeitas sobre o envolvimento da quadrilha dele com parlamentares e grupos privados, incluindo a mídia.

Os deputados terão a oportunidade de questionar, por exemplo, o real caráter das relações entre o contravetor e o diretor da revista Veja em Brasília, Policarpo Junior. Conforme levantamento feito por Carta Maior nas 1.661 páginas do Inquérito 3430, resultante da operação Monte Carlo, a revista Veja foi mencionada 78 vezes e, Policarpo, 53. Os documentos indicam que membros da quadrilha e Policarpo Júnior se encontram – presencialmente, fora as inúmeras conversas telefônicas – pelo menos dez vezes. Só com Cachoeira foram quatro encontros.

“Quem tiver relação com a bandidagem terá que ser investigado. Não tem blindagem”, disse o deputado Cândido Vacarezza (PT-SP), titular da Comissão. Segundo ele, ainda não é possível concluir quais os reais alcances das relações entre o contraventor e a imprensa. Mas cabe, sim, à CPMI apurar a profundidade das denúncias e indícios. De qualquer forma, o deputado acha prematuro se falar em convocar jornalistas ou diretores de veículos para depor. Para ele, é preciso aguardar o curso das investigações.

A deputada Luíza Erundina (PSB-SP), coordenadora da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito a Comunicação com Participação Popular (Frentecom), também defende que a investigação seja levada à cabo. “Temos que desmascarar certas publicações. As denúncias devem ser apuradas e os possíveis culpados punidos com rigor”, afirmou.

Segundo ela, a investigação, em hipótese alguma, significa censura à imprensa ou compromete à liberdade de expressão no país. “Liberdade de expressão é um direito individual, que se estende aos direitos sociais, aos direitos coletivos. É um direito fundamental, diferentemente daquilo que se pretende como sendo censura. É o direito de todo cidadão e de toda cidadã se expressar, interagir com seus locutores. E não apenas de alguns poucos veículos de mídia”, esclareceu.

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que foi um dos primeiros a assinar um pedido de abertura de CPI para investigar as ramificações da quadrilha de Cachoeira, aprova a apuração rigorosa. Segundo ele, os indícios da relação próxima entre Cachoeira e o diretor da Veja já justificam a convocação de Policarpo Junior para depor.

“O direito ao sigilo da fonte é fundamental. O jornalista não é delegado, não tem obrigação de investigar suas fontes. Mas ele tem o dever de investigar, sim, a veracidade das informações que presta à sociedade. Ele não pode divulgar matérias que, sabidamente, são de interesse do crime organizado. O Policarpo tem é que se antecipar e se oferecer para depor na CPMI”, defendeu.

Inércia da procuradoria-geral

As relações entre a quadrilha de Cachoeira e a mídia já foram discutidas durante a sessão da CPMI da última terça (8), quando prestou depoimento o delegado da PF Raul Alexandre Marques de Souza, responsável pela Operação Vegas, de 2009. Entretanto, conforme Cândido Vacarezza, foram tratadas de forma muito superficial.

Segundo o deputado, o que dominou o debate foi o fato do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, não ter solicitado ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura das investigações contra o senador Demóstenes Torres (ex DEM-GO) e os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO) e Sandes Junior (PP-GO), já apontados como muito próximos à Cachoeira.

O delegado informou que as investigações foram entregues à Procuradoria, em 15 de setembro de 2009. Um mês depois, a subprocuradora-geral, Cláudia Sampaio, mulher de Gurgel, disse ao delegado que a investigação não apresentava indícios suficientes para instauração de inquérito. O procurador-geral só tomou providências á respeito do caso em março deste ano, após o vazamento de informações oriundas da Operação Monte Carlo, que também investiga as ramificações da quadrilha de Cachoeira.

A bancada do PT ainda não decidiu pela convocação do procurador-geral. “O que a bancada definiu desde antes da instalação da CPMI, e eu expressei bastante, é que ele deve explicações à sociedade brasileira. A sociedade quer saber porque ele deixou as informações decorrentes da Operação Vegas escondidas durante tanto tempo na Procuradora”, afirma o deputado Cândido Vacarezza (PT-SP), titular da Comissão.

A convocação ou não do procurador será definida na próxima audiência administrativa da CPMI, prevista para ocorrer no próximo dia 17, dois dias após o aguardado depoimento de Cachoeira. As oitivas desta quarta serão realizadas em caráter reservado, sem o acompanhamento da imprensa.


Ver em linha : Revista Carta Maior
Publicado em 10 de Maio de 2012
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